‘Crónicas do além’ na Sala Manoel de Oliveira

‘Crónicas do além’ na Sala Manoel de Oliveira

AILLEURS SI J’Y SUIS, Crónicas do além em português, é um filme de Regina Guimarães e Saguenail onde um grupo de estudantes da Faculdade de Letras do Porto conversa acerca da sua situação de dupla pertença cultural, afirmando as suas alegrias, mas também os sofrimentos que ela acarreta. Este filme realizado em 2003 e mostrado pela primeira vez no Rivoli, no Porto, será exibido e discutido esta quarta-feira, 30 de Dezembro, em Fafe na sua sala Manoel de Oliveira, a partir das 16h30.

A visualização contará com a presença dos realizadores e de algumas participantes no filme, incluindo a fafense Natali Martins que dinamizou este evento com o apoio do Cineclube de Fafe. Em declarações ao Notícias de Fafe, revela que a ideia surgiu após a apresentação do mais recente livro dos fafenses Daniel Bastos e Paulo Teixeira com fotografias de Gérald Bloncourt. “A conversa nesse dia levou-me a relembrar este documentário e a aperceber-me o quão relevante e actual ainda é, sobretudo em Fafe. Todos os anos vem, supostamente de vez, um número - para mim incerto - de portugueses, luso-franceses e outros, de 2a geração para Portugal. Essa geração vem muitas vezes empurrada pelos pais e pelo sonho português. Mas a adaptação nem sempre é pacífica, como poderão ver no filme. A conversa abrange temas tão díspares como a alimentação, as viagens, as concertinas e os ranchos, o racismo e este sentimento tão forte de uma dupla pertença dificilmente fundível”, explicou ao NF. AILLEURS SI J’Y SUIS foi realizado no Porto, em 2003, mas Natali Martins considera que se mantém actual. “Penso que não mudou muita coisa. É verdade que os que voltam agora para Portugal têm ao seu dispor muitas mais ferramentas de comunicação do que nós na altura. Mas, no fundo, acho que muita coisa continua igual. O “décalage” cultural continua lá presente em ambos países: em Portugal e no país de origem. Uma pertença que é uma não pertença a dois lugares. É claro que a Natali de 2003 não é a mesma Natali de 2015 mas isso deixo para verem no filme. Com certeza, que se vão rir e muito”. Questionada sobre as razões que levam ao regresso, diz que a resposta não é fácil, “implica alguma dor e uma tomada de consciência de uma escolha difícil e praticamente irreversível. A minha história é feliz como poderão ver, comparada com a de outras estudantes luso-francesas, mas não significa que seja completamente linear. Permitam-me que partilhe convosco uma reflexão que surgiu no Vila Flor num encontro de alunos e ex-alunos portugueses que estudaram no estrangeiro. Gonçalo Cadilhe, que lá estava como orador, falou sobre as suas viagens e sobre a existência de uma certa “ditadura das raízes” que nos empurra para regressar ao lugar de onde somos. Ele falou de uma necessidade, impressionante e tão subtil, ao mesmo tempo, de regressar ao nosso ecossistema com aquele nível de humidade, aquela inclinação nos equinócios, aquele vento, aquela luz solar”. Um assunto que “espero poder discutir com o público mais alargado” esta quarta-feira, dia 30, a partir das 16h30 na Sala Manoel de Oliveira de Fafe. A iniciativa é aberta à comunidade em geral “mas gostaria de ver sobretudo os nossos emigrantes e as suas famílias. Gostaria de ver pessoas que têm percursos similares ao meu e pessoas que se interessam por estes assuntos. E é claro, gostaria de ver a minha família em peso (ri-se). No entanto, devo avisar que uma boa parte dos testemunhos são em língua francesa e são muito emotivos”, revela Natali Martins. A entrada no evento é grátis e será seguido de um Porto d’Honra acompanhado de Bolo Rei e Galette des Rois.

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