DÁ BEIJINHO!

DÁ BEIJINHO!
As crianças, por norma, não gostam de dar beijinho, muito menos a pessoas que raramente veem, muito menos quando está muita gente, muito menos quando são obrigadas.

Uma das tradições da nossa cultura é cumprimentarmos os presentes numa dada situação social, principalmente se essa situação social envolve a nossa família. Enquanto responsáveis pela educação dos filhos, a maior parte dos pais sente obrigação de instruir a prole para adquirir este hábito de cumprimentar com um beijinho os amigos e familiares quando se encontra com estes. Mas... será este hábito uma cortesia ou tóxico?

Convido o leitor a fechar os olhos por uns segundos enquanto se imagina a si próprio uma criança a entrar numa sala cheia de adultos que já sabe que vai ser forçado a beijar. Muito bem, se já imaginou a situação e reviveu esse sentimento, saberá que não é, de todo, o mais agradável. As crianças, por norma, não gostam de dar beijinho, muito menos a pessoas que raramente veem, muito menos quando está muita gente, muito menos quando são obrigadas. É porque são mal-educadas? Não! É porque não têm regras em casa? Não! É porque só querem fazer as coisas à maneira delas? Não! É porque são antipáticas? Não! É porque são más? Não! É porque simplesmente não gostam? Sim! Vamos descomplicar este assunto. Os pais não devem sentir-se tristes nem alvo de olhares se os seus filhos não quiserem cumprimentar com o beijinho. É desconfortável para as elas, sentem-se invadidas. Não querem dar, não dão. Tal não impede que se tornem adultos cordiais nem significa que os pais estão a falhar o cumprimento do seu papel de educar para a cidadania.

Mais, forçar as crianças a beijar quem não querem e, pior, ralhar ou bater se esta recusar, pode ter efeitos muito adversos:

1 - Estamos a semear a ideia de que a criança não é dona do seu corpo. Ela começa a interiorizar que o que sente em relação a desconforto, repulsa, nojo não é importante se não for validado por um adulto;

2 – A criança deixa de ligar ao seu instinto de repulsa quando um adulto se aproximar dela, invadindo o seu espaço mais íntimo. Este é talvez o ponto mais grave. Se, mesmo com nojo, a criança tem que permitir o beijo, numa situação perigosa à sua segurança (por exemplo, numa investida de um pedófilo) ela vai tender a calar e permitir a invasão do adulto (porque foi ensinada que este é que sabe e que ela tem que obedecer e beijar);

3 - Desenvolve a noção de que quando se gosta de alguém, se deve dar autorização para qualquer aproximação, independentemente do desconforto que estiver a sentir. Se esta noção de base servir de esquema ao longo da vida, facilmente se perceberá o risco em que coloca a criança quando esta for adolescente e começar a explorar a sua intimidade junto de outra pessoa. Não é isto que se pretende. Precisamos de crianças que cresçam a fazer-se respeitar e a saber que se sentirem repulsa com a aproximação do outro têm todo o direito em dizer “Não”. Se o seu filho não quiser dar beijinho, combine com ele cumprimentar as pessoas com um aceno.

Se alguém insistir no beijinho, mantenha-se do lado do seu filho e, com um sorriso, explique “Não lhe apetece”.

Dra. Patrícia Von Doellinger

Psicóloga de Crianças e Jovens Yield Saúde

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