Desde o ataque do 11 de setembro que o mundo ocidental conhece na pele o terrorismo, sente a proximidade da maldade imprevisível e gratuita. Apesar de serem os adultos os que mais consciência têm sobre este problema, é errado pensar-se que as crianças ficam indiferentes. Para as crianças terem um saudável desenvolvimento mental, precisam, entre outras coisas, de sensação de estabilidade, adquirida através de 6 importantes condições:
1. Sentir que o mundo é um local seguro;
2. Ter confiança de que as coisas más não acontecem inesperadamente;
3. Sentir algum controlo sobre o que se passa à sua volta;
4. Saber-se capaz de lidar com as adversidades;
5. Acreditar que as pessoas são intrinsecamente boas;
6. Sentir que os outros a respeitam.
O que rouba o terrorismo? Precisamente estas condições básicas. O mundo deixa de parecer um local seguro, rompe-se a noção de que as pessoas são boas e que a respeitam, é posta em causa a sensação de previsibilidade e de controlo sobre o que acontece.
Por isso, mesmo que a criança não vivencie diretamente um atentado, pode começar a manifestar sintomatologia ansiosa (não querer ficar sozinha, ter pesadelos, recusar andar de metro/avião...).
O que podemos então fazer para evitar este desfecho? Em primeiro lugar, não esconder a informação. É inevitável que a criança se aperceba dos atentados e omiti-los apenas lhe passa a ideia de que não deve fazer perguntas sobre o assunto.
Contrariamente, o mais importante neste momento é mesmo falar, ajudar a criança a construir uma versão o menos disfuncional possível sobre o que se passa, de modo a que não fique completamente destruída a sua noção de que o mundo é um local seguro e que as pessoas são boas.
Explicar apenas que há pessoas que tomam más decisões e acabam por magoar os outros. Aumente os tempos em família. Sempre que o sentimento de segurança da criança se vê abalado é importante que ela sinta que o seu porto de abrigo (a família) está disponível.
Deixe o seu filho expressar os seus medos (através de perguntas, desenhos, faz-de-conta) sem o repreender. Mantenha as rotinas diárias estáveis e previsíveis. Se lá fora o mundo parece caótico, o facto de em casa permanecer tudo igual ajuda a criança a relativizar o sucedido.
Mostre que o bem sempre vence (premissa essencial para o desenvolvimento da criança). Para tal, pode envolver a criança em ações de solidariedade que a façam contactar com a partilha, amor e interajuda e verificar que há mais pessoas como ela, preocupadas com o bem-estar do outro.
Acima de tudo, nunca use argumentos xenófobos e agressivos. Não explique estes atos de terrorismo como sendo uma luta de cristãos contra muçulmanos, ocidente contra mundo árabe. O que mais tranquilizará a criança é saber que o bem impera e que todos os povos estão unidos em torno da luta contra o terrorismo.
Dra. Patrícia Von Doellinger
Psicóloga de Crianças e Jovens Yield Saúde

