Pe. Zé Maria dedicou a vida aos meninos pobres

Pe. Zé Maria dedicou a vida aos meninos pobres
Cerca de 50 anos totalmente doados às casas do gaiato, mais de trinta em Moçambique, onde está sepultado

Estando ainda na memória o evento ‘Terra Justa’, que foi este ano dedicado à situação das crianças no mundo, convidando à reflexão sobre o tema, partilhamos a história de vida do Pe. José Maria Ferreira Costa, um fafense, natural de Ribeiros, que faleceu em Setembro de 2016, em Moçambique, prestes a completar 83 anos, depois de uma vida inteiramente dedicada aos meninos pobres.

Cerca de 50 anos totalmente doados às casas do gaiato, mais de trinta em Moçambique, onde está sepultado.

Uma obra que partilhamos agora, quase sete meses depois da sua morte, depois de alertados por um irmão, que nos enviou a sua biografia. “Em vida, pela sua humildade, nunca permitiria que fizesse divulgação da sua pessoa”, justificou José Arcanjo Costa. Depois de folhear as páginas da breve biografia que lhe foi dedicada pela família, em homenagem, é impossível ficar indiferente à história de vida do Pe. Zé Maria. Desperta também um sentimento de pena, enquanto jornalista, e pessoa, por não o ter conhecido, antes…

 

Foi director da Casa do Gaiato de Lisboa

 

Nasceu em Ribeiros, Fafe, em 27 de Novembro de 1933, sendo o segundo de sete filhos. “Os que o rodeavam sentiram desde cedo que era uma criança especial, pelo seu grande amor pelos mais pobres ou em sofrimento”, lê-se no pequeno livro. Aos 12 ingressou no seminário, com o desejo de ser padre. As férias eram passadas a cuidar dos mais pobres da sua aldeia. Assim, aos 16 anos decidiu que iria ajudar a obra de Rua também conhecida como Obra do padre Américo, a que pertencem as casas do gaiato. “Com 24 anos, recebeu o Sacramento da Ordem, e o bispo da sua diocese não hesitou em atender ao seu desejo”. Assim, dois anos após a morte do padre Américo, iniciou a sua vida sacerdotal ao serviço dos pobres e dos rapazes de rua, assumindo a responsabilidade de director da Casa do Gaiato de Lisboa, onde permaneceu até 1963.

 

Construiu a primeira Casa do Gaiato, em Moçambique

 

Motivado pelas palavras do padre Américo, cujo percurso foi acompanhando enquanto seminarista, o sofrimento dos meninos abandonados de África nunca deixou de estar presente no coração do Pe. Zé Maria, despertando o sonho de iniciar uma Casa do Gaiato em Moçambique. E assim aconteceu. Com o apoio de muitos amigos, conseguiu construir a primeira Casa do Gaiato em Lourenço Marques, actual cidade de Maputo. Contudo, em 1975, aquando da Independência, a sua obra foi nacionalizada e passou a ser propriedade do estado moçambicano. Em 1976, o padre Zé Maria voltou para Portugal, mas por pouco tempo. “As imagens dos olhos das crianças que cuidou em Moçambique apareciam diariamente nos seus pensamentos”. Voltou assim para África, desta vez para a Casa do Gaiato de Benguela, em Angola, marcando a vida de muitos rapazes, cuja vida tocou e transformou. “A convite de um amigo, seguiu para o Brasil em 1978, para trabalhar com as crianças na Aldeia da Paz, em Brasília. Anos que dedicou a construir creches para crianças, nas cidades mais pobres de Goiás. Em casa tinha 18 rapazes menores de idade, recolhidos das cadeias onde dava assistência”. E assim surgiu mais um sonho. Construir uma aldeia para rapazes no Brasil. Quando o projecto já estava feito, recebeu o convite para dar continuidade ao seu trabalho em Moçambique, feito pelo então presidente, professor Joaquim Chissano. Porque sabia que o número de meninos órfãos era alarmante, não hesitou em responder. “Tinha que cumprir a sua missão”. Enquanto esperava que fossem criadas condições para o seu regresso, ainda no Brasil, em Goiás, dedicou-se ao trabalho de construção de casas para pobres, num total de 500 casas em três anos. Em 1991, regressou então a Moçambique. Mas a casa que criou tinha sido adaptada para a Escola de Polícia e foi-lhe doado um terreno para iniciar os trabalhos de construção da nova Casa do Gaiato de Moçambique. E assim fez, idealizando a obra até ao último detalhe, apoiado por arquitectos e engenheiros amigos. Tendo em mente o objectivo das Casas do Gaiato, de fazer de cada rapaz um homem, “procurava que os rapazes pudessem aprender e preparar o seu futuro em espírito de família, de generosidade, de camaradagem e de amor ao próximo”. A sua paixão foi sempre por aqueles que não tem ninguém. Costumava dizer “estes são meus”. Assim, na sua obra, nasceram, dos ensinamentos que ia apreendendo e partilhando, várias oficinas de carpintaria, serralharia, mecânica, electricidade entre muitos outros que iam desde a saúde à gestão, culinária e agricultura, dotando os rapazes de formação para enfrentar a vida. Nas seis aldeias com que trabalhava, procurava despertar nas pessoas o sentido de responsabilidade, motivando-os a sair da miséria.

Presidente da República conferiu-lhe o grau de Comendador

 

A sua obra foi reconhecida por várias entidades. No dia 09 de Julho de 2004 o presidente da República Portuguesa conferiu-lhe o grau de Comendador da Ordem de Mérito. A 12 de Março de 2014, o Governo de Moçambique concedeu-lhe nacionalidade moçambicana por naturalização. Adoeceu, gravemente. Faleceu junto aos seus, e à sua família, no dia 30 de Setembro de 2016. Foi seu desejo ficar em Moçambique, e ser depositado no jardim da sua obra, rodeado de flores. “Ele sempre nos manifestou a vontade de morrer e ficar em Moçambique. Assim aconteceu e ficou sepultado segundo sua vontade, e com o acordo das autoridades de Maputo, dentro da propriedade da Casa do Gaiato, mais concretamente num dos topos do grande pomar, que criou e tanto gostava”, contou o irmão ao Notícias de Fafe. Na lápide, junto à sua imagem, lê-se que “passou fazendo o bem”. Actualmente é a irmã Quitéria, desde sempre o seu braço direito, que dá agora continuidade à sua obra. Os rapazes ainda choram a sua partida. "Pai nós te amamos, continuarás presente em nossos corações", lê-se numa das muitas publicações que lhe são dedicadas, na página do Facebook da Casa do Gaiato de Maputo, que abre, ainda hoje, com a imagem do padre Zé Maria.

 

"Papá, te procuro e não te vejo. Mesmo sentindo e tendo consciência que estás aqui. Eu sei que estás aqui, mas como só te sinto e não posso abraçar-te, ouvir-te, beijar-te. Contar as minhas aventuras e ver-te sorrir… Sim, eu sinto falta. Choro, sim. Por saber que tudo isso me faz falta… As cócegas que me fazias todas as noites antes de dormir, com a tua barba bem-feita e arrumada. Choro sim. Por saber que na mesa ao lado, não mais te verei, para convidar-me a tomar sopa quente ao teu lado… Mesmo sabendo que a tua viagem já estava preparada, pois eras merecedor desse descanso. Mesmo entendendo que tudo fizeste para adiar ainda mais esta viagem, para estar connosco. Mas eu choro, e peço que me deixe chorar. Porque se choro, é de amor e saudades.

Zeca (poema de um Gaiato da casa de Moçambique dedicado ao padre Zé Maria)

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