Ainda não se sabe como, na prática, vai ser assegurado esse período, mas o que se antecipa é que se vá preencher o dia dos alunos com aulas e actividades extra-curriculares, para se assemelhar ao horário de trabalho dos pais. As associações de Pais e a Fenprof já vieram publicamente considerar a medida positiva, se as actividades forem de qualidade. Como psicóloga, enfrento este cenário com muita preocupação.
Em primeiro lugar, NÃO é suposto assemelhar-se o horário escolar das crianças ao horário de trabalho dos pais. A noção de tempo é muito mais lenta para as crianças do que para os adultos. Ou seja, para ela demora muito mais a passar uma hora do que para um adulto. Além disso, o adulto vai almoçar fora do trabalho, a criança almoça na cantina, dentro do recinto escolar. Na prática estará na escola mais de 10h seguidas! Todos os dias!
Em segundo lugar, com actividades estruturadas de manhã à noite, sob ordens de professores ou outros técnicos, onde fica o tempo para a brincadeira livre, para o faz-de-conta, para a imaginação? Queremos produzir autómatos, perfeitos seguidores de regras, mas totais incompetentes na criação de novas ideias? De imediato, com certeza se assistirá a um galopante aumento de diagnósticos de Hiperatividade e Défice de Atenção porque “a criança não consegue ficar sentada no seu lugar durante as aulas!” (pois, nem é suposto!). Toca a dar medicação para a “zombificar” (nada contra a medicação para a Hiperatividade e Défice de Atenção, mas apenas nos casos verdadeiros).
Em terceiro lugar, questiono a tipologia de actividades a oferecer. Mesmo que sejam actividades de exercício físico ou artísticas, aquela criança continua a sentir-se na escola, com um professor que depois vai participar o seu rendimento e, se não se portar bem, leva recado na caderneta. A criança não vai distinguir que aquilo já não é aula obrigatória. E se houver aula de teatro e a criança não gostar? E se em vez de futebol, naquela hora a criança preferir estar a ler? Claro que as actividades serão sempre facultativas, mas a ver pelo que acontece já no primeiro ciclo, o seu carácter é implicitamente imposto, tão implicitamente imposto que algumas escolas até colocam essas a ctividades extra-curriculares intercaladas com as obrigatórias.
Percebo que esta medida facilitará a gestão de muitas famílias, mas o preço a pagar será incalculável.
Porque não dar às famílias “Vales de Tempos-Livres” para usar onde a criança bem entender, noutro ambiente? Porque não apoiar as inscrições em ATL que tenham vários espaços/cantinhos/ateliês para a criança criar, explorar como quiser? Saindo da escola às 19h30 e tendo que se deitar às 21h, com o jantar e banho tratados, onde fica o tempo para a criança e família comunicarem?
Dra. Patrícia Von Doellinger
Psicóloga de Crianças e Jovens
Yield Saúde

